Nas últimas semanas, praticamente tudo que se lê/vê/ouve das notícias aqui está direta, ou indiretamente relacionado as eleições presidenciais que acontecerão agora em novembro aqui na terra do Tio Sam. Essa é a terceira eleição presidencial que acompanho por aqui e, como das outras vezes, tenho me pego grudada na TV, ou caçando notícias em blogs e jornais online sobre os candidatos, suas táticas, e as últimas pesquisas, com um interesse crescente.
Nunca fui uma pessoa politicamente engajada enquanto morava no Brasil (Não me orgulho disso mas é fato e tem que ser dito para que o resto do que vou dizer faça sentido) e as vezes me surpreendo com esse meu interesse no processo daqui. Me pergunto se é apenas um sinal de maturidade, ou se o processo eleitoral aqui é mais interessante. Ou ainda, se é uma obsessão meio platônica da minha parte, já que não posso votar, apenas torcer pra que quem pode seja consciente e vote com a razão.
Tudo começou no fim de 1999, quando aportei para minha primeira visita, exatamente no meio do furacão que foi o processo que elegeu Bush como presidente. Meus conhecimentos de inglês eram limitadíssimos, e eu simplesmente não conseguia entender como era possível que em uma democracia, o voto da maioria não fosse suficiente para eleger o candidato. Passei muito das minhas aulas de inglês tentando entender o conceito de colégio eleitoral e delegados de partido e sempre duvidava de meus ouvidos, ou da minha capacidade de compreensão da língua. Com o tempo me dei conta de que estava entendendo certo, e que o processo sim é que era bizarro, pelo menos para o meu conceito de democracia. Acompanhar as eleições de 2004 foi mais fácil, afinal, já entendia o processo, difícil foi engolir os resultados, mas isso já é uma outra história…
Esse ano o processo está sendo pra lá de interessante, já que o principal assunto em pauta é a economia (alguns até tentam puxar para o lado da segurança nacional, mas não parece estar colando mais!). A recessão econômica é sentida por todos no dia a dia, o que é muito diferente de uma guerra sendo travada do outro lado do mundo. Logicamente as duas coisas estão íntimamente relacionadas, mas é só quando as conseqüências dessa última vem bater a porta em forma de contas mais altas, desemprego e casos de falência (que tem sido freqüentes com a explosão da bolha imobiliária) é que as pessoas passam a se interessar pelo assunto. E talvez esse seja mais um dos motivos para o meu interesse político crescente nos últimos anos.
É bem verdade que não ter horário político aqui também ajuda. O que a gente vê acabam sendo os debates e as notícias na mídia, que são sempre mais interessantes (e, na minha opinião, mais eficientes) do que ouvir o candidato se auto bajulando ou falando uma frase de duas palavras, só para dizer que mostrou a cara na TV. Outra coisa que facilita acompanhar o processo é que são apenas dois partidos. No início, ou primárias, uma série de candidatos a candidato se alistam em cada partido e começa um processo interno para eleger um candidato. Agora, nos últimos dois meses, que é o período mais importante pois é ai que a grande maioria das pessoas começa seriamente a prestar atenção, sobram apenas os dois candidatos e alguns poucos independentes que nem fazem cócegas no processo. Assim, os eleitores tem mais chances de conhecer melhor cada um dos candidatos, e assim tomar uma decisão, no mínimo mais informada.
Não que o processo aqui não tenha grandes problemas, alguns deles intrínsecos a cultura americana, outros (acho eu) intrínsecos ao processo político em qualquer lugar. Entre eles o que mais me incomoda é a tendência a distrair-se do que é realmente importante (o que não é privilégio americano), e a ênfase em questões que são no mínimo irrelevantes, como a cor da pele do candidato, se é homem, mulher (ou indeciso), se é religioso, ateu ou qualquer outra coisa que o valha, entre outras. Além disso, essa limitação partidária que facilita o acompanhamento do processo eleitoral, também limita muito as possibilidades de algum candidato independente, qualquer que seja, consiga eleger-se, ou mesmo tornar-se um candidato forte em qualquer das eleições. Isso significa que para tornar-se um candidato com chances de ser eleito, o político tem que em grande parte, aliar-se as políticas e preceitos de um dos dois partidos.
Acho que agora preciso passar uma temporada de campanha no Brasil para ver como vou reagir ao nosso processo.
